Por Dr. Guilherme Jacobi — OAB/SC 49.546 | Atualizado em julho de 2026
Receber uma intimação em um caso de crime de trânsito — geralmente ligado ao Art. 306 do CTB (embriaguez ao volante) — costuma gerar pânico e dúvidas imediatas: é prisão? preciso ir sozinho? o que acontece se eu ignorar? A resposta muda completamente dependendo de quem enviou a intimação e em qual fase o caso está. Entender isso nas primeiras horas é o que permite tomar decisões corretas.
Os 3 Tipos Mais Comuns de Intimação em Crime de Trânsito
1. Intimação da Delegacia (fase de inquérito)
É a mais comum logo após a autuação. A autoridade policial convoca o condutor para prestar depoimento formal e assinar o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), quando o fato foi tratado como infração de menor potencial ofensivo. Nessa fase, tudo o que for declarado passa a compor os autos e pode ser usado tanto pela acusação quanto pela defesa — por isso o comparecimento sem orientação prévia é um dos erros mais frequentes.
2. Intimação do Ministério Público propondo o ANPP
Quando o promotor entende que o caso comporta o Acordo de Não Persecução Penal, a intimação convoca o investigado (acompanhado de advogado) para uma audiência de formalização. Essa é geralmente a intimação mais favorável de se receber, pois indica que o Ministério Público já sinalizou disposição para resolver o caso sem oferecer denúncia — mas os termos do acordo (valor da prestação pecuniária, horas de serviço comunitário, condições) ainda podem e devem ser negociados.
Como é, na prática, o Contato do Ministério Público pelo ANPP
Em diversas Comarcas, a própria Promotoria de Justiça já utiliza o WhatsApp institucional para agilizar esse primeiro contato antes de uma eventual denúncia. Nesses casos, a mensagem costuma trazer: identificação da Promotoria (número e Comarca), a descrição resumida do fato (data, horário e local da ocorrência), a data e o horário da audiência de proposta, a informação sobre se ela será presencial (endereço e sala do Fórum) ou virtual (link de videoconferência, como Teams ou Zoom), a minuta da proposta de ANPP em PDF anexada à conversa, e a orientação expressa de que o investigado deve comparecer acompanhado de advogado — ou pode solicitar à própria Promotoria a nomeação de um advogado dativo gratuito, caso ainda não tenha constituído um.
Receber a minuta da proposta com antecedência é uma vantagem: ela permite levar os pontos de ajuste (valor da prestação pecuniária, número de horas de serviço comunitário, prazo de cumprimento) já discutidos com o advogado para a própria audiência, em vez de negociar às cegas no momento.
Como Verificar se a Mensagem é Legítima
- Confira se a mensagem cita corretamente o número da Promotoria, a Comarca e os dados básicos do fato (data, local e horário) — mensagens fraudulentas costumam ser genéricas
- Ligue para o telefone oficial da Promotoria de Justiça (disponível no site do Ministério Público do seu estado) para confirmar a autenticidade, em vez de responder apenas pelo número que enviou a mensagem
- Desconfie de qualquer pedido de pagamento, PIX, depósito ou dados bancários para “liberar” o acordo ou “evitar a prisão” — o Ministério Público nunca cobra valores dessa forma, e propostas de ANPP homologadas em juízo não envolvem pagamento direto ao órgão
- Documentos oficiais do MP costumam ter timbre, número de procedimento e assinatura do(a) promotor(a) responsável
3. Citação/Intimação para Apresentar Resposta à Acusação
Se você recebeu uma intimação informando que uma denúncia foi recebida pelo juiz, o caso já deixou de ser inquérito e virou ação penal — você agora é réu, não mais investigado. A lei determina prazo de 10 dias para apresentar resposta escrita à acusação, contados da intimação válida. Esse é o momento processual mais sensível: perder esse prazo sem justificativa compromete oportunidades de defesa que não se recuperam depois.
O Que Acontece se Você Ignorar a Intimação
- Não comparecer à delegacia sem justificativa pode levar à condução coercitiva em intimações posteriores
- Não comparecer à audiência de proposta de ANPP pode ser interpretado como recusa, levando ao oferecimento de denúncia
- Perder o prazo de 10 dias para resposta à acusação impede a apresentação de defesa preliminar, avançando o processo à instrução sem essa etapa
- Em todos os casos, o silêncio ou a inércia não paralisam o processo — ele segue seu curso à revelia de quem não se manifesta
Você Tem Direito ao Silêncio
A Constituição Federal (Art. 5º, LXIII) garante a qualquer pessoa o direito de permanecer calada e de não produzir prova contra si mesma. Isso vale desde a abordagem no local até o depoimento na delegacia. Comparecer a uma intimação não significa obrigação de responder a todas as perguntas antes de ter acesso a orientação jurídica — declarações feitas sem essa cautela costumam ser o principal ponto de apoio de uma denúncia.
O Que é o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP)
Previsto no Art. 28-A do Código de Processo Penal (incluído pela Lei 13.964/2019, o “Pacote Anticrime”), o ANPP permite que o Ministério Público, em vez de oferecer denúncia, proponha ao investigado o cumprimento de condições em troca da extinção da punibilidade — sem condenação, sem antecedentes criminais e sem os efeitos de uma sentença penal. O passo a passo completo do acordo — das 10 etapas à extinção da punibilidade — está detalhado em ANPP em Crimes de Trânsito: Guia Completo.
Requisitos para o ANPP no Art. 306 CTB
- Pena mínima cominada inferior a 4 anos (o Art. 306 prevê mínimo de 6 meses, portanto se enquadra)
- Ausência de violência ou grave ameaça à pessoa no crime
- Confissão formal e circunstanciada da prática do fato
- Não ter sido beneficiado por ANPP, transação penal ou suspensão condicional do processo nos últimos 5 anos
- Não ser o caso de reincidência ou de conduta criminal habitual, reiterada ou profissional
Quando o ANPP NÃO é Cabível
O acordo não é cabível quando o episódio de embriaguez ao volante resultou em lesão corporal ou morte — nesses casos, o condutor responde também pelos Arts. 303 ou 302 do CTB, em concurso material, o que normalmente afasta o cabimento do ANPP e exige estratégia de defesa distinta.
Condições Comuns do Acordo
- Prestação pecuniária a entidade pública ou de interesse social
- Prestação de serviços à comunidade
- Comparecimento periódico em juízo para informar e justificar atividades
- Compromisso de não dirigir sob efeito de álcool durante o período do acordo
- Participação em curso educativo sobre direção responsável, quando determinado
O acordo é homologado pelo juiz e, uma vez cumprido integralmente, gera a extinção da punibilidade — o processo é arquivado sem condenação. Os termos específicos (valor da prestação pecuniária, número de horas, duração) variam conforme a Comarca e o entendimento do promotor responsável, o que reforça a importância de negociação técnica antes da audiência de formalização, e não apenas no dia da proposta.
Como um Advogado Atua Antes da Audiência
- Analisa o boletim de ocorrência, o auto de constatação e o laudo técnico antes de qualquer manifestação
- Identifica nulidades no processo de autuação (calibração do etilômetro, cadeia de custódia, protocolo do teste)
- Avalia se o caso comporta o ANPP e prepara a argumentação técnica para apresentá-la ao Ministério Público
- Negocia os termos e condições do acordo antes da audiência de formalização
- Elabora a resposta à acusação dentro do prazo de 10 dias, quando já há denúncia recebida
Perguntas Frequentes
Recebi intimação por WhatsApp ou e-mail, isso é válido?
Pode ser, sim. Diversas Promotorias de Justiça já usam WhatsApp institucional como canal oficial para agendar a audiência de proposta de ANPP, inclusive enviando a minuta da proposta em PDF. Isso não dispensa a verificação: confirme o número da Promotoria, os dados do fato e, em caso de dúvida, ligue para o telefone oficial do órgão antes de comparecer ou responder. Intimações judiciais formais (citação para resposta à acusação, por exemplo) seguem canais próprios — Diário de Justiça Eletrônico, sistemas como PJe/eproc, ou carta com AR — mas o primeiro contato do Ministério Público sobre o ANPP, na prática, é cada vez mais feito por WhatsApp.
Posso recusar a proposta de ANPP?
Sim, o acordo depende da concordância do investigado. Recusar, porém, normalmente leva ao oferecimento de denúncia e ao início da ação penal — a decisão de aceitar ou negociar os termos deve ser tomada com orientação técnica, avaliando as chances de absolvição em eventual processo contra o custo de cumprir as condições do acordo.
Preciso comparecer com advogado na audiência do ANPP?
A presença de advogado é exigida por lei para a formalização do ANPP — o acordo não pode ser homologado sem assistência jurídica, justamente porque envolve renúncia a garantias processuais em troca dos benefícios do acordo.
Perdi o prazo de 10 dias para responder à acusação, ainda dá tempo de agir?
Cada etapa perdida reduz as opções de defesa disponíveis, mas o processo continua e novas oportunidades de manifestação surgem ao longo da instrução. Quanto antes um advogado assumir o caso, mais alternativas ainda estarão abertas — por isso a urgência em buscar orientação assim que a intimação chega, e não apenas perto de uma audiência.
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